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  • YAM Trilhas Educacionais

Boas-vindas aos Professores e Professoras



Feliz 2021: que seja, realmente, um novo ano!


Rebobinando 2020: como legendar as narrativas docentes deste ano que ainda não acabou?


Este texto é vintage. Bom avisar, né? Estamos em plena era da disrupção, da aula invertida, do ensino híbrido (não seria aprendizagem?), de tudo muito remoto. E o remoto, em uma associação livre, levou-me à necessidade de pensar e compartilhar sobre o resgate. Do óbvio. Do óbvio que virou moda, mas que era processo há muito tempo. Daí o vintage.


A moda retoma, reiventaram, recria. O prefixo -re parece sempre acompanhar as tendências de roupas, acessórios, calçados. Mas, talvez, o rei continue nu e estão ainda tentando nos fazer crer no costureiro, que insiste na tarefa de nos convencer (acho que ele só consegue chegar até a persuasão, no máximo) que vivemos no Admirável Mundo Novo Tecnológico e que...estamos bem, muito bem.


Vou fazer um corte aqui e levá-le até o filme Ela, de Spike Jonze, lançado no Brasil em 2014 e que tem como protagonista Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix. Quem assistiu vai lembrar que Theodore se apaixona pela voz de um programa instalado em seu computador. A voz estaria ali para auxiliá-lo nas operações diárias, como abrir um e-mail, acender uma luz, desligar o computador. Mas Ela ganha corpo para Ele, ganha realmente uma voz, acaba ocupando uma dimensão (antes vivida por uma humana) real. Ele se apaixona por Ela. Interessante pensar que é o próprio Joaquin Phoenix que, em 2019, interpretará Arthur Fleck, aquela pessoa que, por não encontrar afeto, representatividade, lugar no mundo, transforma-se no Coringa.


Entre Theodore e Arthur, vou colocar aqui aquele e aquela que fizeram realmente toda a diferença neste 2020 difícil de qualificar, de engendrar, de gerir, de elaborar: a docente e o docente.

E eis aqui Drummond, em um trecho de A Suposta Existência (in A Paixão Medida, 1980) para iluminar este momento. Vale a pena ler o texto todo, aqui deixo apenas um fio de diálogo:

Como é o lugar

quando ninguém passa por ele?

Existem as coisas

sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,

a pinça esquecida na gaveta,

os eucaliptos à noite no caminho

três vezes deserto,

a formiga sob a terra no domingo,

os mortos, um minuto

depois de sepultados,

nós, sozinhos

no quarto sem espelho? (...)

O poema pode ser lido pelo viés da representação, da constituição e força do signo, do simbólico, mas gostaria de fazê-lo ser uma homenagem a quem precisou de interlocução para poder retraçá-la, redesenhá-la, reconduzi-la a seus próprios e suas próprias interlocuções.


É óbvio registrar aqui o quanto o docente e a docente se reiventaram para manter viva a interlocução. Não me refiro a conseguir deixar o computador ligado, a não deixar cair a sessão, a verificar se câmeras estavam abertas, a policiar se ninguém colava nas atividades e avaliações que simplesmente migraram de um formato presencial para o digital (!!!!!!). Refiro-me àquela outra interlocução, formada por uma rede de sentidos, significados, emoções, de corpos inteiros (e não fragmentados na tela), de rostos que se expressam (e que desparecem por trás de uma apresentação), de um alarido de vozes que, de repente, se calou.


E destaco a docente. A docente que, de dupla, tripla, quádrupla jornada, foi realmente polvo, no cuidar, no olhar, no orientar, no compartilhar a vida com filhos e filhas, com tarefas caseiras em meio à correção de textos e reuniões sem fim. Elas sempre fizeram isso, mas agora tudo ao mesmo tempo e para agora, no agora do não tempo.


Os docentes e as docentes não estavam supostamente existindo, como muitos e muitas tentaram demonstrar. Estavam no real da coisa. Simbolicamente e objetivamente redesenhando um novo tempo. Este tempo e este fazer a educação apesar de.


Não saberia como legendar todas as narrativas que não cabem aqui (e seriam relatos, porque são da esfera do real e não da ficção), mas, no rebobinar dessas imagens (e tantas outras), deixo aqui um desejo de que a trilha de 2021, seja lá qual for, redescubra este ser que faz da continuidade uma resistência. Torço para que a era vintage seja redescoberta e, com ela, o tempo-espaço do e da docente (supostamente considerado). Únicos...desde sempre...para nossa era, desde que o papel e a caneta eram considerados tecnologia também.


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