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  • YAM Trilhas Educacionais

Singular e plural: uma sala de aula composta


Vou iniciar esse texto fazendo um convite: imagine (ou lembre-se!) de uma sala de aula absolutamente perfeita! Arquitetura, luminosidade, sons, materiais disponíveis, livros, estudantes e educadores posicionados e relacionando-se nesse espaço. Portas que se abrem aos corredores, espaços compartilhados, circulação, pisos, vidraças, altura do teto, ventilação, comunicação visual, mesas, cadeiras, lousas...verdes, brancas ou eletrônicas. Relógio, lixeiras, cortinas, gavetas e escaninhos. Os cenários criados, diversos e mesmo divergentes em maior ou menor grau, indubitavelmente possuem relação imaginária com o projeto de escola e de educação no qual se acredita. Sim, essa fantasiação toda dialoga muito com nossa experiência no chão da escola e traz marcas singulares da história de cada educadora e educador.


Examinando um pouco mais esse mesmo cenário, crie (ou lembre!) os rostos, cores, compleições, posturas, humores, vozes. Os talentos, os entraves, histórias tão diferentes e singulares que se encontram no coletivo. Observar aquilo que é peculiar e próprio a cada estudante pode nos parecer impreciso e pouco objetivo, contrapondo-se a uma certa definição de rigor acadêmico; mas também pode declarar que essas naturezas heterogêneas, e tão plurais, pulsam na sala de aula. Silenciosamente ou não.


Não há novidades até aqui e o teor é de fácil entendimento. Sobretudo, considerando que a escola, historicamente, sempre esteve ligada a modelos mais homogeneizantes, lanço um novo convite: como ensinar estudantes pressupondo essa heterogeneidade e como transformar a heterogeneidade em um dispositivo para o trabalho educacional? Ofereço alguns caminhos para que essa reflexão aconteça.


Uma primeira ideia relaciona três esferas escolares: o projeto político- pedagógico, o currículo estabelecido e a alteridade, como é concebida e vivenciada dentro de uma escola. Ancorados nessa determinada ideia de escola e de educação, talvez possamos agora aproximar, sensivelmente, a educação à política. Podemos analisar alguns aspectos: a abordagem e o tratamento dispensado aos estudantes e aos adultos dentro dessa escola, conhecer a comunidade de onde vêm os estudantes e os educadores que integram essa escola, como se ensina e o tipo de avaliação realizada, se consideram as diferenças existentes nos percursos dos estudantes e se há igualdade de condições para que todas/os aprendam, como a escola organiza seus tempos e espaços coletivos e se há participação das famílias nos processos e no dia-a-dia escolar. É interessante entender a escola como uma organização que vai muito além de uma instituição de ensino; é um espaço privilegiado de constituição identitária que cria sentidos, discursividade e laços sociais. Por isso, ‘o jeito de ser escola’ pode ou não garantir se a heterogeneidade que compõe a sala de aula será, de fato, contemplada.


A segunda ideia refere-se ao não apagamento das diferenças, o que já nos impõe diferenças: considerar uma criança ou um/a jovem muito mais do que um estudante é reconhecer um ‘aluno-sujeito’ legitimado em sua singularidade. Nessa perspectiva, um lugar especial é dedicado à escuta e à observação. Importante perceber as expressões do estudante, sua fala e posição na linguagem; se cuida de si, dos outros e dos espaços coletivos; quais são suas características específicas de aprendizagem; como estabelece e sustenta seus laços sociais; como interage com as regras e leis da instituição. Essas são algumas breves pontuações concernentes ao reconhecimento de ‘aluno-sujeito’.


Em uma outra ideia, podemos mencionar a flexibilização (e não adaptação ou adequação) do currículo, sempre de acordo com a avaliação e o posicionamento da equipe escolar. O currículo, quando entendido como expressão da cultura escolar, baliza não só os planos pedagógicos, as aulas e as sequências didáticas, como pode ser também a base que garanta e sustente o princípio de que o conhecimento não se constrói da mesma forma e ao mesmo tempo para todas as crianças e jovens.


Essa concepção de currículo ganha uma dimensão mais interessante uma vez que ele comporta aberturas ou partes ‘vazias’ que possibilitem a reorientação de conteúdos, significados e sentidos a tudo que se desloca do planejado. De acordo com alguns autores, o nascimento do ‘professor-sujeito’ ascende o educador a uma posição grandiosa nesse processo todo. Para lidar com a diferença é preciso saber se o currículo sustenta a utilização de conhecimentos abordados nas diversas disciplinas e que contribuem, por exemplo, para mudar a noção que se tem sobre ‘a comunidade’. A visão tradicional, preconceituosa, está sempre entre nós. Se não houver um entendimento sobre as diferenças e sobre o conhecimento prévio que os estudantes trazem, a homogeneização permanecerá sempre com sua predisposição ideológica. As disciplinas conseguiriam imprimir em suas sequências didáticas tópicos que abordassem a importância da diversidade na formação de uma comunidade. E o que a Biologia, a Química e a Física poderiam dizer sobre o assunto? E as ciências humanas?


Muitos desdobramentos interessantes merecem destaque quando se resgata a heterogeneidade na sala de aula e na escola. A partir dessa vertente e sustentando uma proposta reflexiva e crítica aprofundaremos, nos próximos textos: a medicalização da sociedade, a ‘inclusão escolar’ (termo ambíguo, bastante polêmico) e a submissão do saber escolar ao saber médico, temas que também configuram nosso objeto de investigação e que sinalizam desafios ainda maiores em tempos de pandemia.


A partir de pesquisas acadêmicas e da experiência que sulca nossa história dentro da escola, consideramos valiosa a potencialidade desses desafios educacionais e o quanto nos dizem de uma educação realmente emancipatória.


Texto por: Karyn Bulbarelli, psicóloga e educadora.

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